Blackface

Blackface: o que é e por qual motivo deve ser combatido?

Blackface

Há muita polêmica relacionada ao blackface. Muitas pessoas não entendem o motivo de essa prática ser combatida. Por isso, eu resolvi escrever esse texto.

Basicamente, blackface é uma pintura feita por brancos para se fantasiarem de pessoa negra. E aí muita gente pensa, é só uma fantasia, qual o problema?

Uma das respostas é: contexto histórico. À essa resposta nós podemos acrescentar falta de respeito.

Mas vamos focar no contexto histórico e na história de Hattie McDaniel. Acho que isso é o suficiente para entender todo o resto.

Contexto histórico do blackface

O blackface foi criado em Nova York por volta de 1830. Se até hoje existe racismo no mundo – e nos EUA isso é bem evidente – imagina como eram as coisas em 1830.

Ou seja, o blackface foi criado com o intuito de ridicularizar pessoas negras. Os brancos se vestiam com roupas que eles julgavam ser “de negros”, pintavam o rosto de preto e se comportavam da forma mais estereotipada possível, tentando fazer graça.

Naquela época, negros não eram autorizados a atuar. Entretanto, isso não quer dizer que a sociedade branca não quisesse a presença de personagens negros – especialmente se fosse para dar risada.

Por isso, começaram a surgir personagens negras estereotipadas, com fortes sotaques e maneiras que agir que visavam exclusivamente o divertimento de pessoas brancas.

Quando as personagens negras deixaram de ser apenas “da comédia”

Depois de um tempo as personagens negras começaram a ser retratadas também em dramas. Isso quer dizer que começaram a mostrar os escravos e empregados.

Entretanto, ainda não era permitida a contração de negros. Por isso, pintava-se o rosto de atores brancos – é importante lembrar que a segregação racial americana foi bem violenta e durou muitos anos.

Quando os atores negros eram contratados, eles sempre faziam os mesmos papéis: motoristas, empregas domésticas, camareiras. Na maioria das vezes, esses atores e atrizes sequer tinham seus nomes creditados na obra.

Uma das poucas atrizes que conseguiu se destacar na época foi Hattie McDaniel, a primeira mulher negra a ganhar um Oscar, em 1940.

Hattie McDaniel

Filha de escravos e a mais nova de 13 irmãos, criou um grupo de vaudeville e chegou a se apresentar com o rosto pintado de branco.

Nesse momento talvez exista alguém que argumente que então ela estava praticando o chamado “racismo reverso”. Mas há se de lembrar que os brancos se pintavam de preto com o intuito de ridicularizar uma raça, já uma pessoa negra pintada de branco só queria ter uma chance de trabalhar em algo além do serviço doméstico.

Portanto, não é racismo reverso, especialmente pelo fato de que isso não existe.

Hattie se destacou muito, mas só virou destaque de um espetáculo depois da grande crise de 1929. Em 1947, ela falou sobre o episódio para o Hollywood Reporter:

“Alguém me disse que no hotel Suburban Inn de Sam Pick procuravam uma assistente para o banheiro feminino. Saí correndo e consegui o trabalho. Uma noite, quando todos os artistas haviam ido embora, o gerente pediu que algum voluntário subisse no palco. Pedi uma canção aos músicos e comecei a cantar. Não voltei a trabalhar nos banheiros. Durante dois anos, protagonizei o espetáculo do lugar”.

Ela participou de vários filmes, apesar de Hollywood não ser agradável com atores negros. Por exemplo, Hattie gravou “E o vento levou”, mas não foi convidada para a para a estreia do filme. O motivo? A estreia foi em Atlanta e o estado era segregado.

O filme causou muita controvérsia, inclusive sendo chamado de insulto ao povo negro – essa debate renasceu em 2020, com o filme sendo excluído da plataforma da HBO. Entretanto, ele foi sucesso de crítica que, inclusive, exaltou o talento de Hattie.

Sobre todas a polêmicas relacionadas á sua carreira e aos seus personagens, ela disse: “Prefiro interpretar uma criada por 700 dólares a ser uma por 7”.

O Oscar de Hattie

Em 1940, ela precisou de uma autorização especial para poder comparecer à cerimônia do Oscar. Ela pode ir, mas precisou sentar no fundo, longe dos outros artistas. Foi a primeira mulher negra a pisar na premiação sem precisar limpar o salão. Em seu discurso ela disse:

“Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, membros da indústria cinematográfica e convidados de honra: este é um dos momentos mais felizes de minha vida, e quero agradecer cada um de vocês que me selecionaram a um dos seus prêmios por sua gentileza. Isso me fez sentir muito, muito humilde; e sempre o erguerei como um farol para qualquer coisa que eu possa fazer no futuro. Espero sinceramente ser sempre motivo de orgulho para a minha raça e para a indústria cinematográfica. Meu coração está pleno demais para lhes dizer como me sinto, e posso dizer obrigada e que Deus os abençoe”.

Mas nem isso permitiu que sua vida ou morte fossem mais fáceis. Ela estava trabalhando em uma rádio – com um bom salário – quando descobriu um tumor no peito.

A atriz fez um testamento que continha dois pedidos:

  • que seu enterro fosse no cemitério Hollywood Forever;
  • que seu Oscar ficasse na Universidade Howard.

O cemitério Hollywood Forever não aceitou o corpo de Hattie, pois só brancos poderiam ser enterrados lá. E ninguém sabe onde está o Oscar de Hattie.

Somente um ator compareceu ao seu enterro, James Cagney. Os outros só enviaram flores. Ou seja, mesmo na morte Hollywood fez questão de deixar claro que ela era parte do time, mas não tanto.

Por tudo isso, é bom que você entenda que o blackface nunca pode ser uma forma de apoio à luta. E muito menos uma coisa engraçada.

Fontes 1 e 2

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