Lolita

Leiam, mas não romantizem Lolita

Em 1955 Nabokov lançava Lolita. Eu não acredito na censura, por isso, já quero deixar uma coisa clara: para mim, o livro não é um problema.

Desde o seu lançamento, Lolita foi adaptado para o cinema diversas vezes. As que eu conheço e acredito serem as mais conhecidas são as adaptações de 1962 – do diretor Stanley Kubrick – e a de 1997 – dirigida por Adrian Lyne.

A de Adrian mais fiel, a de Kubrick mais romantizada. Mas nesse post, eu quero falar sobre o livro.

Os personagens principais da obra são Lolita, que no início do livro é apenas uma MENINA de 12 anos, e seu padrasto Humbert, um professor universitário de 40 anos.

Li o livro e decidi, após algumas páginas, marcar todas as que continham passagens que retratavam pedofilia. Meu livro ficou assim:

lolita

O livro é colocado como um diário de Humbert. Ele começa com o prefácio escrito por um psiquiatra, que atendeu o homem na cadeia. Seu escrito é finalizado da seguinte forma:

“Lolita deveria fazer com que todos nós – pais, educadores, assistentes sociais – nos empenhássemos com diligência e visão ainda maiores na tarefa de criar uma geração melhor num mundo mais seguro”.

Entretanto, nem mesmo o diagnóstico entregue no livro, impediu que a definição do nome Lolita se tornasse:

“Mulher jovem e sedutora”.

O narrador

Como eu disse anteriormente, o narrador da obra é o próprio Humbert. Sim, ele descreve como a menina o seduziu. Ele afirma que ela não era mais virgem (o que, definitivamente, não lhe dá o direito de fazer sexo com ela), ele mostra como meninas como Lolita, “ninfetas”, são sedutoras.

Entretanto, devemos nos lembrar que esse é o seu ponto de vista. O ponto de vista de um pedófilo, que sempre verá a criança como culpada.

Porém, não devemos dizer que Nabokov romantizou o fato. Afinal de contas, Hubert solta muitas de suas artimanhas. Ele se casa com a mãe da Lolita só para se manter perto da menina e chega a confessar “artimanhas” para se aproveitar da aproximação:

“Vi-me administrando um potente sonífero tanto à mãe quanto à filha, para poder acarinhar a menina noite adentro com total impunidade”.

E como se não bastasse, ele ainda relata, em uma passagem, se sentir desesperado ao ouvir um som. Depois de investigar, ele percebe que era o som de crianças brincando. Ao analisar mais, ele percebe que o que o desespera é o fato de que ele arrancou Lolita daquele “coral”.

A menina, precocemente tornada mulher, não teve a oportunidade de participar do coral de crianças.

A mãe

Charlotte, a mãe de Lolita é deslumbrada. Ela é sozinha, não entende a menina de 12 anos. Quer desesperadamente se casar (o que não é estranho hoje em dia e, definitivamente, não era estranho em 1952).

Muitas pessoas podem culpar a mãe de Lolita por colocar um pedófilo dentro de casa. Mas como ela poderia saber? Charlotte tem uma pequena pensão e quando um professor universitário vai morar em sua casa, ela fica louca.

Não podemos afirmar que ela não tenha percebido a atração de Humbert por Lolita, mas ela acredita ser coisa de “pai”. Inclusive, ela se “livra” da menina, enviando-a para um acampamento logo depois do casamento.

O marido está escrevendo um livro que não permite que ela leia. Animada com a ideia de que a obra possa ser sobre ela, a mulher decide ler escondida. Assim, ela descobre a obsessão do marido por Lolita.

Com nojo, ela se desespera. Nesse momento, Charlotte se torna a pior das mães, ao decidir se livrar de Lolita, mandando-a para longe. Porém o leitor nunca sabe se isso é apenas pelo ódio do momento já que Charlotte morre.

Logo após a morte da mãe, Humbert busca a menina no acampamento e, após alguns dias, o sexo acontece. Sexo que o próprio narrador deixa claro ter sido diferente, graças à discrepância de tamanho dos seus órgãos  sexuais.

Lolita

Muitos podem defender a “culpa” de Lolita pelo fato de a menina ter demorado para ir embora, porém isso pode ser rebatido com duas passagens do livro. Vou citar uma e apenas comentar a outra.

Logo após o primeiro abuso, a menina o chama de “bruto” e diz que acredita que ele “quebrou algo dentro dela”. Lolita pede para ligar pra mãe e afirma que vai contar para a polícia. Nesse momento, Humbert conta que a mãe dela morreu.

Em muitas outras passagens, fica claro o desejo da menina de ir embora, porém, a que mais me marcou foi essa:

” Disse o padrasto de Lolita. Finalmente, vamos ver o que aconteceria com você, uma menor acusada de haver corrompido um adulto num hotel respeitável, se você contasse À polícia que eu te raptei e violentei. Admitamos que eles acreditem em você. Quando a menor permite que um homem de mais de vinte e um anos a conheça carnalmente, sua vítima é enquadrada no crime de estupro ou de sodomia, dependendo da técnica utilizada, com uma pena máxima de dez anos. Isso significa que irei para a cadeia. Tudo bem. Vou para a cadeia. Mas o que acontece com você, minha órfã? Você será colocada sob a tutela do Departamento de Bem-Estar Público – o que não me parece uma coisa muito animadora. (…) Não acha que, dadas as circunstâncias, você ficaria melhor se ficasse com o paizinho?”

Lolita representa todo o sofrimento de uma criança que é abusada por seu responsável. Lolita é uma criança precocemente levada ao sexo. Lolita nunca foi e nunca será a representação de um amor proibido.

Leiam, poucos livros foram bem escritos como esse. Mas, por favor, não romantizem Lolita. Sintam dor por ela. Sintam dor por todos os anjos abandonados, mal cuidados e abusados.

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